Principal motivo para a não doação de um órgão é a negativa familiar

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A negativa familiar é um dos principais motivos para que um órgão não seja doado no Brasil. No ano passado, 43% das famílias, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), recusaram a doação de órgãos de seus parentes após morte encefálica comprovada.

Dados do Ministério da Saúde mostram que, no ano passado, das 6.476 entrevistas familiares para autorização de doação, houve 2.716 negativas, somando 42%, número que vem se mantendo praticamente constante ao longo dos anos.

“O transplante só pode ocorrer se houver doação de órgãos”, ressalta Valter Duro Garcia, médico responsável pelos transplantes renais na Santa Casa de Porto Alegre e editor do Registro Brasileiro de Transplantes, além de membro do Conselho Consultivo da ABTO. “Se eu estivesse na lista [de espera por órgão], eu iria gostar de receber [o órgão]. Então, por que não doar? A doação é uma troca. E há muito mais possibilidade de uma pessoa estar na fila [por um transplante] do que ser um doador, três a quatro vezes mais possibilidade”, disse.

Uma das razões para a recusa dos parentes em doar órgãos é a falta de conhecimento sobre o que é a morte encefálica, um processo “absolutamente irreversível”, segundo o médico.

“Para ser doador, tem que ter morte encefálica, que é quando há uma lesão grave na cabeça [o que pode acontecer] após se levar um tiro, ter um acidente de trânsito, principalmente por moto. Ter um tumor no cérebro ou meningite, por exemplo”, explicou. Quando o cérebro para de funcionar, acrescenta, a pessoa para de respirar, e só continua respirando por meio artificial. Nesse momento em que ocorre a morte encefálica é que os médicos procuram a família para pedir autorização para que os órgãos dessa pessoa possam ser doados. “Um doador pode salvar até oito pessoas”, lembra Valter Garcia.

Doações

O número de doações de órgãos vinha crescendo no Brasil. Segundo a ABTO, no ano passado o crescimento na taxa de doadores efetivos de órgãos cresceu 2,4%, atingindo 17 doadores por milhão de população (pmp), mesmo número divulgado pelo Ministério da Saúde, mas ainda abaixo da taxa prevista, que era de 18 doadores por milhão de população.

Mas neste ano, entre janeiro e março, a taxa de efetivação caiu, passando para 16,8 doadores por milhão de população. Segundo a associação, esse resultado do primeiro trimestre praticamente inviabiliza a obtenção da meta prevista para este ano, que seria de 20 doadores por milhão de população. O que é agravado, segundo a ABTO, pelo fato de que, além da queda na taxa de doadores, houve também um baixo aproveitamento dos órgãos doados.

“Os transplantes de órgãos no Brasil começaram nos anos 60. Em 1964 aconteceu o primeiro transplante de rim; em 1968, de coração, fígado, pâncreas”, disse o médico Valter Garcia. “Era uma época heroica, até 1987. Em 1988, começamos uma fase mais romântica, porque não tinha uma regulação específica, não tinha financiamento e nem controle. A partir de 1997 se estabeleceu uma política de transplante no Brasil. Naquela época, tínhamos três doadores por milhão de população (pmp) e se fazia menos de mil transplantes de rim, menos de 800 de fígado e muito pouco de transplante de coração e de pulmão”, lembra.

“Em 2007, houve uma série de modificações importantes e se fez planejamento para dez anos para se chegar em 2017 a 20 (pmp) doadores. Até 2014 cumprimos essa meta. Com a crise econômica e uma série de fatores, entre 2015 e 2016 não houve aumento. Em 2017, subimos para 16,6 (ppm). Não chegamos aos 20 (pmp), mas chegamos próximo. E então fizemos um novo planejamento até 2021”, explicou. “Esse ano planejamos chegar a 20 [pmp]. Mas estamos agora com cerca de 16,9 e vamos chegar até 18, mas não atingimos a meta. Possivelmente vamos atrasar em um ano a meta dos 24 por milhão de população”.

A dificuldade para que a taxa de doações cresça não ocorre só no Brasil, mas é manifestada aqui pela grande desigualdade entre os estados, disse Valter Garcia. Em Santa Catarina e no Paraná, por exemplo, a taxa é maior que nos Estados Unidos. Por outro lado, no Amapá não havia qualquer doador.