Nasce o Goyaz republicano. Dia 15 de novembro de 1889 causou profundas mudanças na política goiana

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Reportagem do DM mostra documentos e contas públicas da época em que Caiados, Bulhões e Xavier de Almeida disputavam, passo a passo, o poderNão existia praticamente nada em Goiás: estradas eram precárias, o sistema de comunicação, inexistente. E a iluminação não passava de um sonho.

Apenas na cidade de Goiás ou em outras localidades mais consolidadas, como Morrinhos ou 'Jatahy', existia alguma espécie de desenvolvimento importado por meio de produtos, roupas, livros que chegavam da Capital Federal ou de São Paulo.

Documentos consultados pelo Diário da Manhã mostram que a proclamação celebrada hoje traria um movimento político importantíssimo para o desenvolvimento dos goianos: a federalização. E com ela a modernidade negada pelo império.

O Estado passaria a contar com a maior parte de sua arrecadação e os modelos de organização se afastaram gradualmente de Portugal. E assim surgiria efetivamente na esfera pública as famílias que dominariam a política goiana até a década de 1930 – e que ainda hoje se fazem presentes na política de Goiás.  Sim, a República institucionalizou o coronelismo. Fortaleceu os grupos e despertou ainda mais o desejo pelo poder. Simples assim: o caixa do governo passava a ser mais robusto do que na Monarquia.

 

É dessa época o revezamento das famílias dos Bulhões, Jardins, Caiados e de Xavier Almeida no poder. Antes, eles já se revezavam. Mas agora, o cenário republicano tornava mais clara a disputa e diferenças.

A República que se instalava abriu espaço para os partidos republicanos e aposentou a antiga dicotomia dos integrantes dos Partidos Liberal e Conservador.  O grupo conservador defendia o centralismo das decisões na capital federal. Os liberais, legenda fundada em Goiás pelos Bulhões, queria a liberdade de ação para as províncias.  

Uma das palavras da moda era ser democrata, mesmo que para isso – para a conquista do voto 'democrático' – fosse necessária a imposição do voto de cabresto. Imagine governar Goiás nesse tempo: sem a existência da Celg, do Detran, sem Universidade Estadual de Goiás (UEG) ou a necessidade de concessão de bolsas universitárias. Era algo completamente diferente do momento atual.

 

Por isso é dessa época o marco zero do aparelhamento público goiano, com os primeiros investimentos em vias de acesso e obras. É desse período também a venda de sonhos por conta dos políticos.  O homem público da República não prometia metrô, mas uma moderna Estrada de Ferro que pudesse tirar o homem do sertão e o levar para a metropolitana São Paulo, por exemplo.

A modernidade de 1889 também incomodava os goianos mais letrados, que avançaram pouco nas duas décadas anteriores. Para se ter ideia, o mundo  respirava a psicanálise, as histórias sobre uma torre de ferro enorme que despertava Paris. No Japão surgia a Nintendo – a mesma empresa que hoje lidera o mercado de videogames de 3D. E em Goiás, um precário sistema educacional sobrevivia às duras críticas dos gestores que entendiam ser dinheiro jogado fora educar crianças.

 

Tínhamos apenas um chafariz e algumas empresas que tentavam vender tecidos, farmácias com medicamentos vencidos e armazéns que comercializavam arroz e feijão.

O presidente da província, Eduardo Augusto Montadon, foi quem atravessou os tempos de Império para Província. Governou até 6 de dezembro, quando, por fim, sob fogo cerrado, entregou o comando para a junta governativa que tomou posse para fazer a transição.

O triunvirato que assumiu o poder era composto por Joaquim Xavier Guimarães Natal, José Joaquim de Sousa e Eugênio Augusto de Melo. No grupo, o brilhante Guimarães Natal – jurista goiano que no futuro integraria o Supremo Tribunal Federal (STF) – emprestava serenidade e boa educação.

Na Corte Suprema, Guimarães Natal tomaria posse em 1905 e só deixaria o STF em 1927.  Mas na fase que antecedeu a República, exerceu a promotoria de 'Goiás Velho', onde cuidava da atenção dos órfãos – uma preocupação crescente da Goiás daquela época. Jornais de 1880 consultados pelo DM mostram que Guimarães Natal era atuante na Capital, realizando eventos paroquiais para angarir recursos e assim tratar dos menores.  

 

Novo governo

Ao fim da junta, assumiu Rodolfo Gustavo da Paixão –cujo governo durou de fevereiro de 1890 até 1891. Ao Congresso Constituinte, dois anos depois da instalação da República, ele enviava um comunicado para lá de abusado: atacava aqueles que aderiram à República e que jamais fizeram pela liberdade de culto, fim da escravidão e federalismo.  Para descrever o momento, usava a palavra da moda: eletrizar. "A notícia da Proclamação da Republica electrisou Goyaz, como todo o Brazil, anullando, desde logo, quaesquer velleidades de restauração", dizia o governador na linguagem da época.

Rodolfo inclusive alerta que jamais teve espírito de vingança e sempre que possível procurou pelo auxílio de "bons elementos" dos partidos monarquistas.   Para o grupo de parlamentares, destacava que telegramas maldosos ('telegramas de effeito') eram enviados para a imprensa carioca, que interpretava equivocadamente o que acontecia em Goiás.

Em torno do debate de Rodolfo, claro, estava as disputas regionais com os grupos políticos – principalmente dos apoiados pelos Caiados.  Mas no centro das discussões estava algo ainda hoje debatido no Brasil: a real descentralização política.

 

Hoje, o Brasil reproduz um sistema federado que atende à União, que agora mesmo ameaça unificar as alíquotas de ICMS - um imposto de importância estadual. Na época, existia o receio de que a descentralização deixaria os novos entes federados, como os municípios desprotegidos. "Não vos arreceeis de que a autonomia do municipio lhe acarrete ruína, por falta de receita sufficiente aos seus encargos, e afrouxe ou annulle os poderes estadoaes: "Descentralização- União", eis o lemma dos republicanos históricos. Quanto mais independente elle for, mais se fortalecerá o laço que o vincúla ao centro ", disse o governador, em carta pública, que encaminhou aos congressistas.

Uma das preocupações da época dizia respeito a definir o que seria Goiás  a partir daquele momento. E tudo deveria constar na Constituição. O governador, por exemplo, sugeria que o ensino fundamental deveria ser público e gratuito, mas o secundário e  universitário, quando existisse,  caberia às associações, como "preceitua, sabiamente, a constituição paulista".

 

Fonte: DM