Cresce a lista de leite de baixa qualidade

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Várias marcas de leite pasteurizado tipo C – embaladas em saquinho – vendidas na Grande Goiânia continuam apresentando excesso de microorganismos, coliformes fecais, água e produtos químicos como água oxigenada e até formol. A constatação é do Procon estadual, que, depois da polêmica ocorrida há quase um mês com a divulgação de análises do produto requeridas pelo Sindicato dos Médicos Veterinários do Estado de Goiás (Sindivet), encomendou novas verificações em laboratório, que atestaram o comprometimento de qualidade do leite de saquinho produzido por 14 laticínios da região metropolitana.

As análises foram feitas pelo Centro de Pesquisa em Alimentos da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Goiás (UFG), mesmo laboratório que há um ano e quatro meses verificou as amostras coletadas pelo Sindivet. Os parâmetros de qualidade foram estabelecidos pelas instruções normativas n° 26 e n° 51, do Ministério da Agricultura. Entre as marcas reprovadas no teste do Procon, agora com amostras de 16 laticínios goianos, estão as sete que já tinham apresentado problemas nas análises feitas também na UFG a pedido do Sindivet. Apenas duas marcas não voltaram a ser reprovadas.

O superintendente em exercício do Procon, Wesley Nunes dos Santos, diz que o Ministério Público de Goiás (MP) cobrou a divulgação de novos laudos sobre a qualidade do leite após a denúncia do Sindivet. O gerente de fiscalização do Procon, Sebastião Natal, afirma que os laudos serão encaminhados ao MP, que poderá instaurar ação penal contra as empresas, por crime contra a saúde pública. Os laticínios que reincidiram nos mesmos pontos, explica Natal, terão de arcar com multas maiores, e podem ser interditadas, caso testes futuros reafirmem a baixa qualidade do produto.

SAÚDE

Nos últimos tempos, muitos consumidores da Grande Goiânia trocaram o leite em embalagem tetrapack pelo leite de saquinho, diante da diferença de preços, que pode chegar a 50%. A auxiliar de enfermagem Maria Lúcia Nogueira, 40, conta que ela e o filho consomem em média dez litros de leite pasteurizado tipo C por mês, e que a acusação da baixa qualidade da bebida pode deixá-la sem opção. Já a enfermeira Larissa de Souza precisa de 40 litros do leite de saquinho por mês, porque a mãe faz tortas para vender e diz que não vai parar de comprar a mercadoria, pois os custos com o tetrapack seriam muito altos.

Para a presidente da Associação das Donas de Casas de Goiás, Maria das Graças Santos, isso mostra que o leite é um item essencial para a população, que fica sujeita a doenças ingerindo um produto nas condições apontadas pela UFG. Ela acusa que os laticínios que colocam leite irregular no mercado sabem que a fiscalização dos órgãos competentes não é satisfatória. “O Ministério da Agricultura e a Agrodefesa deveriam dar mais atenção a um produto como este. Exigimos uma satisfação aos consumidores”, conclamou.

EMPRESAS QUESTIONAM METODOLOGIA

A reportagem conseguiu contato com duas das marcas autuadas pelo Procon por disporem no mercado leite com qualidade inferior ao estabelecido pelo Ministério da Agricultura: o Leite Lato, do laticínio Lebon, e o Leite Primor. Ambas alegam que o teste realizado pelo Centro de Pesquisa em Alimentos da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Goiás (UFG) ocorreu em temperatura acima da ideal e que análises semanais da Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) comprovam a qualidade de seus produtos.

A Lato, autuada no mês passado por deficiência nutricional do produto, conforme publicado pelo HOJE na edição de 19 de junho, alega que a amostra analisada agora a pedido do Procon foi de apenas um litro, enquanto no mínimo três deveriam ter sido submetidas ao teste. A análise ainda teria sido feita com produto vencido havia dois dias. Segundo a empresa, o teste foi realizado a 14 graus Celsius, enquanto o ideal seriam 8 graus.

Já a Primor alega que os supermercados também analisam o produto no momento em que o recebem e nunca houve reclamação à empresa. A empresa também afirma que a temperatura de análise foi acima da devida. “Já levamos amostras ao laboratório da UFG e eles concordaram que a temperatura elevada condiciona o aparecimento de maior quantidade de coliformes que a permitida”, argumenta uma das proprietárias do laticínio, Lúcia Ribeiro Koch. “Entregamos o leite em temperatura entre 2 e 4 graus Celsius e a Agrodefesa já atestou várias vezes a qualidade do nosso produto. Não temos responsabilidade se ele é analisado em temperaturas bem maiores”, diz, afirmando que o laboratório analisou o produto a 11 graus.

A direção da Agrodefesa informa que não vai comentar as análises encomendadas pelo Procon enquanto não concluir um monitoramento em todos os 150 laticínios do Estado, que vem sendo realizado desde a divulgação da análise requerida pelo Sindivet. Não há prazo para a manifestação da agência. O laboratório da UFG disse que não comenta análises feitas sob contrato para outra entidade. O Sindicato das Indústrias de Laticínios de Goiás (Sindileite), até a tarde de ontem, não quis dar entrevista sobre o assunto.