14 das 17 marcas de leite reprovado são de Goiás

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Das 17 marcas de leite contaminado que foram divulgadas pela Superintendência de Proteção aos Direitos do Consumidor (Procon-GO), 14 são produzidas em Goiás. Destas, a Big Leite, de Senador Canedo, e a Lacton, de Pirenópolis, são reincidentes com relação a análises anteriores feitas no mesmo laboratório, o Centro de Pesquisa em Alimentos da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Goiás (UFG). Todas as empresas já foram autuadas pelo Procon e têm prazo de dez dias para apresentar defesa. A multa pode chegar a R$ 3,1 milhões.

A pesquisa verificou diversos itens fora do padrão recomendado para o consumo. Entre as irregularidades estão: adição de água para diluição do leite, excesso de acidez (que indica prazo de comercialização vencido), índices de gordura e proteínas fora do indicado, além da presença de coliformes fecais, água oxigenada e até soda cáustica. Os relatórios serão encaminhados à Polícia Federal (PF), para que sejam anexados ao inquérito nacional, desencadeado a partir da operação Ouro Branco, que identificou a adulteração de leite longa vida em Minas Gerais.

Segundo o superintendente do Procon, Antônio Carlos de Lima, os resultados também serão levados ao conhecimento dos ministérios públicos Federal e Estadual. O objetivo é que sejam apurados os motivos pelos quais a os órgãos de fiscalização do leite – Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa), Ministério da Agricultura, além de vigilâncias sanitárias Estadual e Municipal – não tomaram providências sobre a situação.

“Eu não fiscalizo leite. Quero que os órgãos competentes façam o que deve ser feito para que não deixem que esses produtos vão para as nossas mesas”, afirma o superintendente. Esta é a terceira denúncia sobre contaminação de leite levado a conhecimento público pelo Procon Goiás em menos de quatro meses. A primeira foi feita em junho pelo Sindicato dos Médicos Veterinários de Goiás. Conforme o diretor da entidade, Hélio Lourêdo da Silva, além da fiscalização, a inspeção da produção do leite também não é feita há quatro anos pela Agrodefesa.

Ele explica que o órgão tem obrigação de coletar amostras a cada 15 dias para análises de laboratório. “Eles não estão fazendo a coleta. Não têm nem reagente para as análises. Estão nos devendo o relatório das atividades dos últimos seis meses”, ressalta Lourêdo. Apesar das acusações, a Agrodefesa não quis se pronunciar sobre o assunto. O gerente de Comunicação e Marketing do órgão, Edimilson Souza de Lima, informou que até a próxima terça-feira serão divulgados os relatórios sobre a atividade da agência, com a quantidade de multas e interdições.

DENÚNCIA DE ADULTERAÇÃO FEITA AINDA EM 2005

A Vigilância Sanitária Municipal começou ainda ontem a coleta de amostras de leite para serem analisadas no Laboratório Central Dr. Giovanni Cysneiros (Lacen), o único considerado oficial pelo órgão. Em no máximo 15 dias serão liberados os resultados de algumas marcas. Entretanto, a diretora Mirtes Barros Bezerra explica que esta é uma rotina da Vigilância de Goiânia. “Os problemas mais recentes encontrados no leite e derivados foram no primeiro semestre. Um foi de rotulagem e outro de envasamento errado.”
Quanto às análises apresentadas pelo Procon, a diretora diz que não foi comunicada oficialmente das marcas reprovadas na divulgação de ontem. E ainda: ela afirma que a denúncia feita em junho passado foi levada ao conhecimento do superintendente pela própria Vigilância, após a denúncia do Sindicato dos Veterinários ainda em 2005. “O laudo de junho é antigo, de dois anos atrás. Encaminhamos os resultados à Agrodefesa, mas não tivemos resposta de que medida seria tomada”, enfatiza.

Por meio da Assessoria de Comunicação, a superintendente da Vigilância Sanitária Estadual (Svisa), Ângela Maria de Miranda Cardoso, ressaltou que “a responsabilidade pela qualidade dos produtos é do fabricante e que a culpa por fraude ou adulteração não pode ser atribuída a qualquer órgão de fiscalização”. Ela esclarece que a responsabilidade pela checagem nas indústrias é do Ministério da Agricultura. Nos pontos de venda, a fiscalização compete à Vigilância Sanitária Municipal.

Já Estadual realiza análise e toma providências junto às empresas quando há uma denúncia ou suspeita de irregularidades em procedimentos de alta e média complexidade, “como a fiscalização de todo o processo de fabricação de medicamentos e a análise dos padrões de qualidade e identidade de produtos, para verificar se eles atendem aos seus respectivos registros”, explica o gerente de fiscalização da Svisa, João Ferrreira de Moraes.

INTERDIÇÃO
Sete lotes de leite do tipo longa vida das marcas Parmalat, Calu e Centenário (que não é vendida em Goiás) tiveram a comercialização interditada em medida cautelar da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). De acordo com a superintendente da Vigilância Sanitária Estadual, Ângela Maria de Miranda Cardoso, não há confirmação de que estes lotes vieram para Goiás. Por isso, os produtos serão mantidos nos locais de comércio, sem permissão para a venda, já que, apesar da suspeita, a adulteração não foi confirmada oficialmente. A Parmalat disse que os lotes investigados já não estão mais no mercado, já que ultrapassaram o prazo de validade.

SINDILEITE CONTESTA

O Sindicato das Indústrias de Laticínios no Estado de Goiás (Sindileite) contesta a divulgação de marcas de leite contaminado feita pela Superintendência de Proteção aos Direitos do Consumidor (Procon-GO). Segundo o diretor-executivo, Alfredo Luiz Correia, nenhuma das marcas do produto pasteurizado (de saquinho) tiveram direito a contraprova, que é um direito que as empresas têm para confirmar a primeira análise. “Não foi dado o direito de resposta às indústrias”, contesta.

O superintendente do Procon, Antônio Carlos de Lima, justificou o fato dizendo que este tipo de leite tem prazo de validade de, no máximo, cinco dias e, por isso, não havia tempo para a contraprova. Além disso, Alfredo Correia desmente as informações repassadas pelo Procon sobre os leites UHT (de caixinha). Ele diz que de sete marcas reprovadas em julho, quatro foram consideradas apropriadas ao consumo após sofrer uma contraprova.

O presidente do Sindileite contesta ainda o superintendente dizer desconhecimento de tal fato e afirma que tem provas de que um representante do órgão acompanhou os últimos exames no laboratório.

DONAS DE CASA
A presidente da Associação das Donas de Casa do Estado de Goiás (ADC), Maria das Graças Santos, informa que a entidade vai exigir dos órgãos competentes que os produtos reprovados sejam retirados do mercado.